O retorno de Ronaldo ao futebol brasileiro foi um dos grandes acontecimentos da vida de Alfredo. Não que ele tivesse sido futebolisticamente tocado pelo regresso do fenômeno. Na verdade, Alfredo pouco se importava com Futebol e, ainda menos, com os destinos do Corinthians.
Na sua infância, na sua adolescência, Alfredo nunca chegou sequer perto de uma bola. Enquanto seus amigos de colégio disputavam à tapa o direito de bater uma bolinha nos intervalos das aulas do colégio, Alfredo caminhava, decididamente, para a cantina da escola.
A única coisa que Alfredo seria capaz de disputar à tapa era um bom sanduíche. Um, não! Um, jamais! Em poucos minutos, Alfredo era capaz de comer, de devorar, de dilacerar, de matar e de morrer por vários sanduíches.
Sua família, particularmente sua mãe, tinha o maior orgulho do apetite voraz do filho. Vocês não imaginam a satisfação que ela sentia quando alguém fazia menção à gordura excessiva do seu menino.
Desafiando todas as leis médicas e romantizando um bocado a coisa, Dona Alfredina, sempre que podia, dizia, em alto e bom som, a plenos pulmões, que o gordo, sim, era que tinha nobreza de caráter e de coração. “Não conheço nenhum gordo”, afirmava, “que tenha abandonado sua mãe na velhice ou que tenha sido condenado por um crime bárbaro”.
Alfredo, acostumado com a sua situação, fazia questão de passar ao lado dessa discussão. O mais correto, talvez, seria dizer que ele passava ao lado de absolutamente tudo na sua vida.
Era o que se pode chama de um homem solitário. Vivia só! Absolutamente só! Não tinha amigos. Nunca havia nem mesmo flertado com alguma garota. A mera possibilidade da presença feminina o angustiava. Sua rotina era de uma monotonia angustiante. Já com 22 anos, freqüentando o curso de filosofia, Alfredo alternava seus dias entre a faculdade e a residência materna.
A sensação de quem olhava a cena de longe era de que Alfredo se sentia um ser humano menor. Sua alto-estima era inversamente proporcional ao seu peso. Como era triste, comia! Como comia, tornava-se ainda mais triste e desgraçado.
Alfredo, de fato, parecia um caso sem solução. Como a mãe tinha pavor de cirurgias e pleno comando sobre os passos do filho, uma redução de estômago estava completamente descartada.
Sendo assim, o destino do rapaz estava selado. Psicólogo algum, na avaliação da vizinhança, seria capaz de dar jeito aquele caso.
Foi aí que apareceu Ronaldo...
Um dia, enquanto esperava pela sua refeição numa determinada lanchonete, Alfredo viu alguns comentaristas esportivos falar horrores do antigo fenômeno. Diziam que Ronaldo estava acabado para o futebol, morto, gordo demais para produzir alguma coisa.
Sentindo-se pessoalmente agredido pelos insultos proferidos contra Ronaldo, Alfredo decidiu passar a acompanhar o noticiário esportivo e a torcer pelo ex-número 1 do mundo.
A cada exibição do fenômeno, Alfredo delirava. Cada gol do centroavante corinthiano era comemorado com um furor insano pelo jovem filosofo.
Na segunda-feira seguinte a conquista do título paulista pelo Corinthians, Alfredo surpreendeu todos os seus colegas de faculdade.
Fugindo (e muito) da sua habitual discrição, ele entrou na sala de aula vestindo uma gigante, uma gigantesca, camisa do clube paulista.
Nas costas, escrito à mão, bem acima do número 9 do seu novo ídolo, podia se ler a seguinte frase: “a genialidade não respeita medidas”.
Atônita com a situação, Helena, sua belíssima companheira de sala, rompeu a cortina de isolamento que os separara por anos e perguntou se havia acontecido alguma coisa.
Alfredo, senhor de si, convicto das suas razões, ciente dos novos tempos, e sem tremer um escasso milímetro, foi direto ao ponto: “Os gordos ressuscitaram. Eu, finalmente, estou vivo. E devo isso ao Ronaldo”.